Você não precisa ter medo de nada

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Certa vez eu estava com meu Mestre no Rio de Janeiro, visitando o Pão de Açúcar. Era um dia muito bonito, e havia centenas de pessoas no parque, algumas delas praticando rapel.

Meu Mestre e eu nos aproximamos do local onde havia instrutores e alunos, e presenciamos a expressão de medo, pavor talvez, no rosto dos neófitos que buscavam coragem sabe-se lá de onde para enfrentar aquele desafio que para mim não fazia o menor sentido.

Então meu Mestre me disse:

— Não sei tu, mas a mim podem oferecer o que quiserem, deste ou de qualquer outro mundo, que eu não desço essa encosta de morro amarrado nessas cordinhas escrotas.

No momento concordei com ele, afinal eu tampouco desceria da rocha firme sob meus pés para a encosta lisa e vertical do Pão de Açúcar (ou, para ser bem preciso, do Morro da Urca).

Como convém ao ego, interpretei as palavras de meu Mestre como uma “autorização” para ter medo: se até meu Mestre tem medo de descer um costão de morro via rapel, por que eu não posso ter?

Acontece que eu estava equivocado.

A resistência de meu Mestre aos esportes radicais era exclusivamente uma demonstração de inteligência básica inerente a quem tem um corpo físico e conhece suas limitações.

É a mesma inteligência que faz com que eu não meta a mão numa labareda, que não ponha o dedo no moedor de carne, ou que não brinque com eletricidade. Todos temos a certeza de que vamos nos queimar, nos ferir, ou talvez até mesmo extinguir nossa vida física caso cometamos o ato de estupidez.

E essa inteligência não é exclusividade dos estudantes d’UCEM, nem de ninguém: todo ser humano a tem (assim como outras espécies e formas de vida).

Este é um truque básico do ego: convencer a mente de que o medo (que só serve para alimentar o corpo de dor) é algo benéfico em algum nível, inclusive fazendo-a perceber coisas positivas (por exemplo: o bom senso de não correr riscos idiotas) como manifestações de medo.

Note que não falamos aqui da sensação de medo oriunda de ameaças concretas e iminentes (como alguém nos ameaçando com algum tipo de arma, por exemplo), que ativa nossos instintos mais ancestrais e nos faz correr para preservar a vida. Este medo se esvanesce no instante mesmo em que a ameaça deixa de se fazer presente.

Já o medo psicológico é uma doença que se manifesta de diversas formas, tais como:

  • agitação;
  • ansiedade;
  • preocupação;
  • nervosismo;
  • pânico;
  • irritação;
  • impaciência, etc.

Esse medo é sempre de que alguma coisa poderá acontecer, não de que algo esteja acontecendo neste momento. Nós estamos no aqui e agora, mas a mente está no futuro, criando um espaço de angústia.

E se tivermos perdido o contato com o Agora, com o poder e a simplicidade do momento presente, essa angústia será nossa companhia constante.

A emoção é a reação do corpo à mente. Como o ego é extremamente paranoico, ele se acha em tempo integral sendo ameaçado, em perigo. Então, o ego transmite à mente essa mensagem de paranoia, e a emoção resultante é, portanto, o medo.

O medo, em última análise, é o que o ego tem da morte, da destruição (da sua morte — sua: do ego — e destruição). Até mesmo reações triviais e aparentemente inofensivas, como a necessidade de entrar numa discussão para provar ao outro que ele está errado, defendendo uma posição mental com a qual nos identificamos, acontece por medo da morte. Para o ego, errar é morrer, e é por isso que o ser humano em geral “não pode errar”.

Ora, o Ser é imortal, e à medida que vamos nos apropriando de nossa Consciência, de nossa Presença naquela parte nossa que simplesmente é, essa necessidade de estar sempre certos (o que é uma forma de violência) vai se diluindo. A pessoa passa a se sentir confortável para manifestar qualquer pensamento ou ponto de vista de modo firme e sincero, mas sem agressividade ou qualquer sentido de “defesa”.

O poder sobre os outros é a fraqueza disfarçada de força. O verdadeiro poder é interior e está à sua disposição agora. (TOLLE, Eckhart in “O Poder do Agora”)

O número de pessoas que já se desidentificou do estado permanente de medo é extremamente reduzido. Assim, podemos seguramente generalizar que todas as pessoas com quem encontramos ou conhecemos vivem em um estado permanente de medo, só o que varia é a intensidade.

Nem você, nem eu, nem ninguém, precisamos ter medo de nada. Só o ego é que tem medo, porque sabe que sequer existe fora do mundo de ilusões que ele mesmo criou. À medida que formos despertando deste sonho com o qual nos identificamos, saber-nos-emos cada mez mais imortais e unos com o Pai, o que nunca deixamos de ser embora iludidos pelo magnífico sonho inventado pelo ego.