O Corpo de Dor e os Relacionamentos

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Ontem falei sobre o corpo de dor e as explosões emocionais. Todos sabemos que em maior ou menor grau, elas estão presentes em todos os relacionamentos íntimos, e a razão para isto é que parceiros passam a maior parte de seu tempo juntos, expondo-se um ao outro ao máximo.

Para um grande número de pessoas o corpo de dor é formado por memórias afetivas relacionadas a um dos pais, normalmente mas não necessariamente o do gênero oposto; tampouco são só os genitores que nutrem os corpos de dor dos filhos — há infinitas fontes de sofrimento para gerar o corpo de dor nas pessoas. Em algum momento da vida o corpo de dor então é projetado automaticamente no parceiro ou parceira. E mesmo que estejam adormecidos, corpos de dor sempre vão despertar em um relacionamento.

Acontece que as pessoas sempre (ou talvez seja mais correto dizer quase sempre) atraem para si parceiros com corpos de dor compatíveis. A sua dor vai ativar a dor do outro, e a dele vai ativar a sua. Quando a atração física é particularmente forte no início, pode ser que seja a atração entre os corpos de dor.

Tais relacionamentos levam ambos os parceiros ao sofrimento. Por mais que o sentimento reinante seja rotulado de amor num primeiro momento (quando tesão e atração são intensos), é a inteligência corporal guiando a pessoa a quem pode ajudá-la a tornar-se mais consciente de seu corpo de dor, através do caminho do sofrimento.

Embora possa parecer negativo um relacionamento baseado na atração do corpo de dor, de fato ambos os parceiros estarão se presenteando com uma oportunidade valiosíssima de crescimento, pois as pessoas poderão tornar-se mais conscientes de si mesmas.

O objetivo da vida não é evitar o sofrimento (que, como estudantes d’UCEM, sabemos que sequer é real), mas sim aprofundarmos nossa existência na realidade do Ser, na consciência de nossa real natureza.

Cabe salientar que se tais relacionamentos não são necessariamente negativos ou deletérios, tampouco há nas minhas palavras um “incentivo” para que as pessoas busquem parceiros agressores, ou que sabidamente vão causar dor e sofrimento!

Raramente o corpo de dor se manifesta na fase de “namoro”. No começo tudo é maravilhoso, e os parceiros passam a ser o apoio um do outro. Aí, em poucos meses (ou poucas semanas, ou alguns anos) de casamento os corpos de dor de ambos começam a se manifestar: a atração esfria, e os “problemas” começam a aparecer, justamente quando há muito mais compromisso e envolvimento.

Ao conscientizar-se dos efeitos do corpo de dor (pouco importando o vocabulário usado para descrevê-lo ou designá-lo) o casal tem a chance de tomar uma das possíveis atitudes:

  • fingir que o corpo de dor não existe, vivendo uma vida de sofrimento velado e vazia de propósito;
  • ignorar a chance de tornarem-se conscientes de seus medos e condicionamentos, separando-se em nome do conforto;
  • deixar que seus corpos de dor decidam o futuro de ambos, o que normalmente significa viverem longamente em ódio um do outro;
  • aproveitar a chance que a atração entre os corpos de dor trouxe, e usar o parceiro como espelho, como ferramenta de autoconhecimento, um ajudando o outro a centrar-se e a habitar o agora em vez de perder-se na ilusão do tempo.

É claro que estou sendo didático ao “esquartejar” as possibilidades de um relacionamento em apenas quatro, e em hipótese alguma há qualquer tipo de julgamento “certo/errado” em minhas palavras.

Com “estar centrado” e “habitando o agora” quero referenciar aquele que é o estado natural de todo ser humano: habitando um corpo, tendo uma consciência da unicidade com este momento, sem projetar a si mesmo para o passado ou para o futuro; sem pensar, realmente, e sim sentindo com todo o seu ser uma completa paz, harmonia e tranquilidade.