O Corpo de Dor e as Explosões Emocionais

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Já falei antes sobre o corpo de dor, mas gostaria de abordar o assunto novamente de uma outra forma.

Resumidamente, o corpo de dor é uma “entidade” que todos temos (exceto aqueles raros de nós que já o dissolveram totalmente). É um apanhado de emoções não processadas armazenadas no corpo e no subconsciente.

A principal manifestação do corpo de dor são as “explosões emocionais”: um incidente relativamente pequeno, quiçá insignificante, pode levar a uma reação emocional intensa. É como se fosse uma bomba armada, e qualquer coisinha pode ser o gatilho para detoná-la.

Os gatilhos normalmente são eventos que “tocam” memórias antigas, sejam da infância, sejam de qualquer outro período sensível da vida da pessoa (o que a psicologia chama de trauma).

É como se o corpo de dor fosse uma massa de medo compactado. Uma situação, um evento, uma pessoa ou mesmo uma frase ou palavra, podem provocar uma intensa reação de medo, por causa das memórias subconscientes associadas.

O corpo de dor se forma porque nós não encaramos as emoções negativas, logo tampouco as dissolvemos, no momento em que elas ocorrem. Caso as emoções negativas sejam simplesmente “abafadas” ou “enterradas” quando se manifestam, ainda assim serão armazenadas na memória do corpo, criando um corpo de dor adormecido. Normalmente o corpo de dor é criado durante a infância, através das experiências infantis negativas. Entretanto, experiências negativas na vida adulta também reforçam o corpo de dor.

Para muitas pessoas o corpo de dor fica adormecido durante a maior parte do tempo, o que significa que a pessoa não se dá conta de que ele está ali, mas determinadas situações ou eventos podem funcionar como gatilho, e então a pessoa começa a sofrer.

A razão para a infância ser o principal período de formação do corpo de dor reside no fato de que crianças não têm a capacidade mental de entender tudo logicamente. OK, nem os adultos. Mas para as crianças as emoções podem ser muito mais importantes.

Exemplifiquemos: digamos que o pai de uma menina tenha abandonado a família quando ela era muito jovem. A ausência paterna pode ser tão dolorosa que a criança suprime a emoção e nega a si mesma pensar sobre o assunto. Ademais, os pais também normalmente impedem a criança de sentir e de expressar sua dor. Mas o sofrimento vai se manter no circuito, e no futuro o mais remoto pensamento de que o namorado, ou o parceiro, possa abandonar a menina (agora adulta) irá acionar o corpo de dor, já que o corpo associa tal evento com o que está soterrado dentro dela. Assim como quando criança, nossa personagem ainda costuma (todos nós, não só ela) suprimir qualquer coisa que possa despertar a dor, e ela resistirá fortemente e lutará contra o que ela interpreta como a razão para o ressurgimento da emoção.

Dissolvendo o corpo de dor

O corpo de dor pode ter sua densidade diminuída — implicando sofrimento cada vez menos intenso em reação às situações que normalmente disparariam os gatilhos da dor — bem como pode ser completamente desfeito.

Um estudante d’UCEM possivelmente sabe, ou saberá, o que deve fazer para a pouco e pouco ir desfazendo seu corpo de dor: conscientizar-se não apenas mentalmente de que só existe o agora, que passado e futuro são meros truques inventados pelo ego para reforçar a ilusão de separação.

Já dizia Jesus, e está na Bíblia: deixem que os mortos enterrem seus mortos.

Estar ciente da ação do corpo de dor (enquanto corpos ainda encarnados), bem como ter a consciência de que o passado só pode agir em nossas vidas na medida em que permitimos.

Propositalmente não falei de perdão neste texto, tampouco falei em observar cada uma das memórias dolorosas que construíram o corpo de dor de cada um. Este omiti porque considero que sem o foco no agora, revisitar memórias dolorosas pode ser apenas um jeito de o corpo de dor se retroalimentar; aquele porque pode haver uma certa arrogância no perdão para quem não estiver atento, e em se tratando de algo tão melindroso quanto o corpo de dor, quanto menos variáveis para se lidar, melhor.