O Brasil de Bolsonaro como oportunidade

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Jair Bolsonaro é o pior presidente que um país já teve, e ainda assim a tendência é de permanecer no poder, diretamente ou por meio de seus filhos, por longos, intermináveis anos. O que tem de bom numa situação dessas?

A princípio, a tragédia — anunciada e confirmada — de eleger-se um sujeito ignorante, belicoso, destrutivo, violento e alijado de transparência ou civilidade não tem nada de bom para os brasileiros, nem para ninguém no mundo. Apesar disso são numerosos os seus apoiadores, sobre os quais não desejo falar agora, suficientes para garantir sua reeleição para qualquer cargo que concorra, desde síndico de prédio à presidência da república.

Em última análise, o governo deste senhor não é melhor ou pior do que qualquer coisa do mundo, uma vez que sabemos que só o Amor é real. Se alguma coisa é algo que não o próprio Amor, então ela é uma ilusão sem significado algum a não ser o que eu dou, você dá, que cada pessoa dá a ela. Mas tampouco queremos falar de últimas análises, e sim fixar-nos em algo mais superficial e potencialmente mais útil para a maioria das pessoas.

A pergunta que fica é: o que tem de bom um governo com características tipicamente fascistas, que não apenas flerta mas acasala com o nazismo, que privilegia a morte e a destruição, que não poupa esforços para cortar laços com outras nações e que prioriza o fanatismo e a violência a qualquer tipo de progresso social, cultural ou científico?

Muitas são as respostas “certas” para tal pergunta, mas podemos resumir tudo a uma só palavra: oportunidade.

Quem faz um caminho consciente e voluntário de evolução espiritual não raramente acaba esquecendo da humildade em algum momento, trocando-a por uma falsa humildade, arrogância pura disfarçada de angelitude.

Os bolsonaristas em geral são o espelho para todas aquelas características que preferimos esquecer, mas que nem por isso deixam de ser nossas também: ignorância, truculência, ódio, preconceito. São qualidades que abominamos, que não acolhemos em nós mesmos, e que por isso mesmo não tomamos consciência delas. E não ter consciência de nossa sombra implica que nosso caminho evolutivo fique estagnado, para dizer o mínimo.

Este governo necropolítico — porém democraticamente eleito — representa a oportunidade de fazermos contato com nossos desejos de morte, de destruição, sem que precisemos levá-los à ação. Ou seja, em vez de sentir culpa quando secretamente, ou não tanto, desejamos a morte do presidente; quando planejamos em nossa intimidade o assassinato de um irmão de quem não gostamos, estamos tendo a oportunidade de dar voz ao que temos de pior em nossa alma sem precisar criar mais karma por causa disso.

Raramente esquecemos do fato de que somos todos filhos de Deus, ou manifestações do Único Filho de Deus em seu sonho inocente e puro, mas nem por isso menos assustador ou apavorante. Mas frequentemente esquecemos que todo o clã Bolsonaro, seus ministros e secretários oportunistas (para ficar com apenas um adjetivo para eles), ou qualquer pessoa de quem nós não gostemos, que toda essa gente também é filha do mesmo Deus, tanto quanto nós mesmos, e que — parafraseando William Paul Young — Deus também os ama, cada um, de uma maneira especial.

Há uma outra oportunidade intrínseca ao bolsonarismo vigente no Brasil: a de fazer diferença na vida das pessoas em escala micro o que talvez não seja possível a todos nós fazer na macro.

Cada criança que ensinarmos a ver o outro como seu irmão, sem preconceitos de qualquer tipo, cada um que possamos demover da ideia de causar danos a si mesmo (ou a outros) por causa da situação geral do país, terá sido um feito que certamente valerá por toda uma encarnação.

E uma terceira oportunidade, e destas a mais importante porque mais abrangente, é a oportunidade de perdão. Não que seja fácil, nunca ninguém disse que seria. Mas quem conseguir atravessar uma encarnação inteira que inclua esse período obscuro da História e conseguir perdoar os protagonistas da barbárie e amá-los como seus irmãos que são, essa pessoa terá certamente atingido o objetivo máximo da iluminação espiritual.